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Editorial: A não comemoração dos 200 anos
07 de Setembro de 2022 as 12h 20min
Há quase 200 anos, deixamos de ser colônia de Portugal e nos transformamos numa nova nação continental que começa na fronteira da Venezuela e se estende até a divisa com o Uruguai.
A independência na América Portuguesa foi proclamada por um descendente da própria realeza de Portugal –d. Pedro 1º. E a partir dali nascia o Brasil. Na América Espanhola, o processo de independência foi comandado por 2 sul-americanos –o argentino San Martin e o venezuelano Simón Bolívar–, e do respectivo processo resultaram proclamadas as independências de 19 países, sem que nenhum espanhol governasse qualquer deles.
O mesmo Brasil em que um português nos governou após supostamente nos tornar independentes é o país onde a tecnologia 5G convive com as agruras da desigualdade social, com as misérias da palafita, da seca, da fome de mais de 33 milhões, do saneamento básico que não chegou a quase 50% da população.
Neste mesmo Brasil, temos fila de espera para aquisições de helicópteros e aviões de luxo e ensino público esmigalhado pela falta de investimentos e pela corrupção que desvia recursos que deveriam ser ali investidos. E partidos políticos torrando os recursos provenientes do orçamento público para o fundo partidário para a aquisição de outros helicópteros, carrões e aviões de luxo, além de orgias e outros gastos sombrios.
Apesar destas terríveis peculiaridades, vivemos a redemocratização desde 1986, ou seja, há 36 anos. Temos uma Constituição Cidadã desde 1988, quando foi criado o Sistema Único de Saúde (SUS), há 34 anos. Há 90 anos tivemos a conquista do direito do voto da mulher, apesar de termos só 15% de cadeiras ocupadas por elas no Congresso.
Temos já 133 anos de República, e no ano passado, 2021, o líder do Governo na Câmara defendeu o nepotismo como modelo exemplar e ético de gestão pública. O presidente da mesma Câmara tem slogan de campanha afirmando que ele é “foda”. Já temos 134 anos de abolição da escravidão, mas se acumulam as revelações até hoje de casos escabrosos de pessoas escravizadas em fazendas ou em trabalhos domésticos.
Apesar de todos os pesares, o brasileiro é um povo alegre, que gosta de misturar o feijão com arroz, de festar, de celebrar, sendo sua marca o calor humano, a alegria, a empatia. Mesmo sem essas marcas tão características, nos Estados Unidos, nos 200 anos da independência, em 1976, houve grandes comemorações promovidas pelo governo e pela iniciativa privada. O planejamento começou 10 anos antes –foram milhares de eventos, conforme narra Rubens Ricupero.
O atual presidente brasileiro foi eleito empunhando diversas bandeiras, inclusa a do nacionalismo e do patriotismo exacerbados. Sua identidade política e de seus seguidores nas redes sociais enaltece o uso da bandeira nacional, do hino e do próprio nacionalismo. Ele se gaba de ter sido militar, de ter sido forjado nas Forças Armadas.
Tais premissas, diante do modelo democrático, onde o escolhido pela maioria é o único legitimado para governar para todos, inclusive para os que nele não votaram, era razoável supor que desde 1º de janeiro de 2019, começassem os preparativos para a grande festa de união nacional para comemorar os 200 anos de nossa independência em 7 de Setembro de 2022. Até porque o presidente tomou o poder de um outro grupo político de quem era adversário.
O que se vê, entretanto, é um deprimente e miserável espetáculo de pobreza de espírito política, que os livros de história registrarão por todo o sempre. Não teremos qualquer celebração unindo o país, reverenciando nossa memória política, nossa história republicana, reunindo os ex-presidentes, as nossas instituições.
Pelo contrário, há uma convocação, calcada no ódio, lastreada em disseminação de declarações não comprovadas sobre supostas irregularidades nas urnas eletrônicas, que deram ao próprio presidente 6 mandatos de deputado federal sem qualquer contestação de sua parte pelo mesmo exato sistema. Verdadeiro gesto de ingratidão e de incoerência.
O presidente instabiliza a democracia de seu próprio país ao invés de semear a união e a paz. Espalha a desunião e sonega ao povo brasileiro a oportunidade de comemorar data de importância incomensurável em seu processo histórico. Um povo ceifado de reverenciar sua história está sendo alijado nas profundezas de sua essência e as marcas deixadas por este gesto serão indeléveis, por todo o sempre.
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