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Sexta Feira, 12 de Junho de 2026

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Gordofobia: O preconceito que não ficou na infância

12 de Junho de 2026 as 07h 12min

Lembra da Mônica sendo chamada de “gorducha” pelos seus amiguinhos? Do Seu Barriga que não era chamado pelo nome, mas sim por “seu barriga”, devido a sua característica física? Como esquecer da Pipa fazendo dieta e nunca emagrecendo?

Essas cenas fizeram parte da infância de muitas pessoas. Foram apresentadas como humor, passaram despercebidas por gerações e pareciam inofensivas. O problema é que não ficaram restritas às páginas dos quadrinhos ou às telas da televisão.

Personagens que marcaram gerações inteiras e permaneceram vivos na memória de quem cresceu acompanhando suas histórias.

A gordofobia é um tema complexo, cercado de preconceitos que muitas vezes se escondem atrás de comentários aparentemente inocentes. Em um exercício de reminiscência, esses personagens ajudam a compreender como determinadas ideias foram naturalizadas ao longo do tempo e continuam presentes na vida adulta, inclusive no ambiente de trabalho.

O personagem gordo aparecia como piada: divertido, atrapalhado. Sua presença servia mais ao humor do que à construção da própria narrativa, e isso foi encarado como algo absolutamente normal por muito tempo. Apelidos, comentários e situações constrangedoras, hoje reconhecidos como bullying, eram tratados como brincadeiras comuns.

A Mônica correndo atrás dos amigos com o coelho azul, toda vez que era chamada de “gorducha”, fazia parte do humor da história. A reação era lembrada por todos, mas o motivo da reação, era ignorado. 

Diversas foram as histórias em que Pipa, a menina da saia preta e blusa branca, aparecia fazendo dieta, frequentando academia ou buscando formas de emagrecer, quase sempre ao lado da amiga Tina. O curioso é que o resultado nunca chegava. Pipa nunca emagreceu. Era como se sua principal função na narrativa fosse continuar sendo a “gordinha” da turma.

Chaves conquistou gerações de brasileiros. Entre seus personagens, o Seu Barriga carregava no próprio nome uma referência à sua aparência física. Antes mesmo de sua história ou personalidade, era essa característica que o apresentava ao público.

As histórias ficaram na infância, mas as referências nos acompanharam. Aquilo que parecia apenas brincadeira no gibi, no desenho ou no seriado encontrou espaço também nas relações de trabalho, nos processos seletivos, nas conversas entre colegas e nos silêncios de quem prefere não se envolver.

O preconceito se manifesta no riso que ninguém contém. No apelido que “é só brincadeira”. No comentário sobre o prato de comida no intervalo. Na piada no grupo de mensagens que ninguém interrompe. Na exclusão silenciosa. Na entrevista em que “outro perfil foi escolhido”.

Também aparece na associação automática do corpo à preguiça, ao desleixo ou à incapacidade. No olhar que avalia antes mesmo de qualquer palavra ser dita. E aparece, ainda, quando o espaço simplesmente não comporta aquele corpo.

Cadeiras inadequadas. Uniformes que não servem. Equipamentos incompatíveis. Olhares constrangidos diante do que deveria ser absolutamente natural: a diversidade de corpos humanos.

Tudo isso produz desgaste, tanto físico como emocional.

Constrangimentos vindos de um olhar, de uma fala ou de uma exclusão, deixam consequências psíquicas reais. Ansiedade, isolamento, queda da autoestima e adoecimento silencioso. Esse tipo de julgamento ignora fatores emocionais, hormonais, metabólicos, genéticos e sociais. Como se fosse possível conhecer a história de alguém apenas pela aparência.

Embora ainda não exista no Brasil uma lei específica para a gordofobia, a discriminação por peso corporal pode gerar consequências jurídicas. Dependendo da situação, ofensas, humilhações e exposições constrangedoras podem configurar injúria (art. 140 do Código Penal), além de violarem direitos ligados à dignidade, à honra e à imagem da pessoa, assegurados na Constituição Federal.

No ambiente de trabalho, a legislação impõe às empresas o 
dever de prevenir situações de assédio e discriminação. Quando a conduta causa danos à vítima, também pode haver responsabilização e o dever de indenizar.

Em outras palavras, o preconceito pode vir disfarçado de brincadeira, mas as consequências jurídicas são reais. O Direito pode indenizar o dano moral, mas não apaga a memória da humilhação. Algumas marcas não aparecem nos processos. Permanecem na lembrança de quem passou anos convivendo com apelidos, constrangimentos e exclusões tratados como algo normal.

Mudar esse roteiro exige mudança de comportamento, consciência do dano que se causa ao outro, muitas vezes de forma despercebida e inocente. E você? Já foi alvo de apelidos, comentários ou situações que deixaram marcas na sua vida?

ANDRÉA MARIA ZATTAR É DVOGADA TRABALHISTA E PREVIDENCIARISTA, ARTICULISTA E MEMBRO DA ABMCJ

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