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'Guerra do Amanhã': como canibalizar dúzias de filmes em um produto mofado
DA REPORTAGEM
17 de Julho de 2021 as 09h 32min
Chris Pratt à frente de “A Guerra do Amanhã” – Foto: Amazon Studios
Não existe uma única ideia original em “A Guerra do Amanhã”. Nenhuma cena, nenhum arco dramático, nenhuma cena de ação. A impressão é que seus criadores, o diretor Chris McKay e o roteirista Zach Dean, fizeram uma maratona com todos os filmes que curtiam e foram sublinhando o que dava para afanar. É menos um filme e mais um caso para a polícia cinematográfica.
Pior ainda é constatar que a aventura, uma salada que mistura viagens no tempo e uma invasão alienígena (Tom Cruise fez melhor em “No Limite do Amanhã”), parece fazer regredir o relógio. Fosse lançada em, digamos, 1992, até que esse veículo para Chris Pratt entraria na lista de passatempos inócuos que o tempo deixou mais simpáticos.
Chegando ao público em 2021, porém, A Guerra do Amanhã divide o DNA com desastres como “Invasão do Mundo: Batalha de Los Angeles" e "Skyline - A Invasão". A ideia geral é atrelar uma premissa familiar ("ataque de aliens" nunca envelhece) com alguma reviravolta esperta (opa, olha a viagem no tempo!) e devotar o orçamento para os efeitos especiais. No caso do filme de McKay, que antes dirigiu "LEGO Batman - O Filme", a aposta é levemente maior porque o budget ao menos bancou Chris Pratt, louco para ter seu nome em algo que não seja Marvel ou Jurassic Park.
A turma ao menos poderia se dar o trabalho de escolher uma ideia narrativa e se ater a ela. A opção foi uma espécie de roteirização freestyle, com os clichês mais bestas (a família em primeiro lugar, o sacrifício valoroso, o alivio cômico) costurando de qualquer jeito as cenas de ação boladas pelos cineastas. O resultado é material para pelo menos uns três filmes, espremidos em 140 minutos.
Como o título entrega, “A Guerra do Amanhã” troca o conforto do presente pela distopia do futuro, mais precisamente três décadas à frente, quando a Terra foi devastada por uma raça alienígena. Como os invasores são brutais e já mataram geral, as forças do futuro conseguem construir uma máquina do tempo, dar um salto para trás e recrutar novos soldados (na verdade, qualquer um que possa ser convocado), que serão arremessados ao conflito futurista.
Tudo em “A Guerra do Amanhã” parece que passou da validade. É um filme mofado que tenta a todo custo se vender como novidade. Tarefa difícil quando seu ponto de venda mais interessante, os tais invasores, surgem com a cartilha do alien moderno: dentes afiados, guinchos guturais, uma pá de tentáculos, zero pensamento racional e a tendência afetada para a ultra violência. É a xerox como E.T. do mal, e como nenhum personagem tem o mínimo de desenvolvimento dramático, é fácil não dar a mínima para quem é por eles estraçalhado.
Daí em diante é um shot de bebida para cada filme canibalizado sem o menor constrangimento. Tem muito de "Tropas Estelares", uma pitada de "Alien", mais um pedaço de "Aliens, o Resgate", o climão de "Armageddon" e uma tungada desavergonhada em "O Enigma de Outro Mundo". Garanto que você termina "A Guerra do Amanhã" totalmente bêbado. Quando Chris Pratt, já no clímax nonsense, sai no braço com uma rainha alien, entorpecer os sentidos parece uma boa ideia. Não importa quem vença, a gente já perdeu.
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