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Sexta Feira, 29 de Maio de 2026

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Micróbios congelados de 48.500 anos podem despertar e ameaçar humanos, plantas e animais

28 de Maio de 2026 as 15h 50min

O permafrost — a camada de solo permanentemente congelada do Ártico — guarda muito mais do que carbono e metano. Cientistas descobriram que ele também armazena uma verdadeira cápsula do tempo microbiológica, com vírus, bactérias e outros micróbios que estiveram dormentes por dezenas de milhares de anos. Agora, com o aumento global das temperaturas e a consequente erosão do gelo, esses patógenos ancestrais estão começando a despertar — e a ameaça não se limita a pandemias humanas.

Em 2022, pesquisadores da Universidade de Aix-Marseille, na França, reanimaram 13 vírus de amostras de permafrost coletadas no extremo leste da Rússia, incluindo um com 48.500 anos — o vírus mais antigo já recuperado em laboratório. O resultado foi alarmante: mesmo após dezenas de milênios inativos, os patógenos permaneceram capazes de infectar organismos. Entre as amostras analisadas, estavam fezes congeladas de um mamute de 27 mil anos e o conteúdo estomacal de um lobo siberiano. Dali, os cientistas isolaram vírus batizados de Pithovirus mammoth, Pandoravirus mammoth, Megavirus mammoth, Pacmanvirus lupus e Pandoravirus lupus.

Os pesquisadores alertaram, em artigo publicado na revista Viruses, que o degelo do permafrost tende a liberar esses vírus desconhecidos no ambiente. “Por quanto tempo esses vírus poderiam permanecer infecciosos uma vez expostos às condições externas, e quão provável será que encontrem e infectem um hospedeiro adequado no intervalo, ainda é impossível estimar”, escreveram. “Mas o risco está fadado a aumentar no contexto do aquecimento global.”

De acordo com o IFL Science, o cenário de pesadelo não é apenas teórico. Em 2016, uma onda de calor na Península de Yamal, na Sibéria, descongelou uma carcaça de rena infectada com antraz décadas atrás. A bactéria se espalhou, matou uma criança e levou ao abate de mais de 200 mil renas. Embora alguns cientistas tenham minimizado o risco, atribuindo o surto à queda na vacinação, o episódio reacendeu o debate sobre o potencial de micróbios há muito perdidos retornarem com força total.

Um perigo ainda menos discutido é o impacto na agricultura. Em um estudo recente, pesquisadores do Instituto de Pesquisa Polar da Coreia coletaram amostras de permafrost na Península de Seward, no Alasca, e as deixaram derreter em laboratório. Durante 90 dias, uma bactéria chamada Pseudomonas — responsável pela podridão mole da batata — proliferou rapidamente, atingindo níveis dramáticos assim que o gelo perdeu seu controle. Quando colocada em tubérculos de batata, a bactéria os transformou em uma massa viscosa e não comestível.

Outros patógenos de plantas também foram detectados em depósitos gelados. Núcleos de gelo da Groenlândia, com até 140 mil anos, continham o vírus do mosaico do tomate, capaz de infectar tomates, pepinos, pimentas, alface e beterraba.

Embora as regiões mais ao norte da Terra ainda sejam pouco habitadas para a agricultura, o aquecimento tem atraído um número crescente de pessoas para plantar vegetais e cereais no solo recém-descongelado. Se essa migração continuar, o solo liberado do permafrost pode se tornar um jackpot para os microrganismos congelados que ali dormem — e uma dor de cabeça global para a segurança alimentar.

Fonte: DA REPORTAGEM

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