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Terça Feira, 07 de Julho de 2026

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Mochileira: sinopense percorre mais de 3 mil km pela Via Francigena

24 de Junho de 2022 as 05h 30min

“Além de realizar o meu sonho de ser mochileira, meu objetivo é mostrar que qualquer pessoa pode realizar um sonho louco, mirabolante, mesmo que não faça sentido para mais ninguém, apenas para ela”.
É com estas palavras que a personal trainer de Sinop, Karen Kristina Almeida Secolini, resume o objetivo do mochilão que está realizando pela Europa. Iniciado na Itália, no começo de junho, passando ainda por França, Espanha, até chegar em Portugal, a aventureira está conhecendo o Velho Continente – sem patrocínio, sem agência de turismo, só com uma mochila nas costas – percorrendo o caminho inverso da Via Francigena (mais à frente, traremos mais informações sobre esta rota) – e, ao mesmo tempo, se reconhecendo enquanto pessoa.
Karen deve ultrapassar a marca de 3,2 mil km percorridos em um período entre 4 e 5 meses de caminhada. Sim, apenas caminhando, em média 25 a 30 km por dia. Além da peregrinação, ela ainda aproveita para turistar nos poucos momentos livres, e ainda liga o notebook para realizar consultorias online para seus clientes aqui no Brasil.
Mas para chegar onde está, foram várias tentativas. Na primeira, após a abertura gradual das fronteiras internacionais, Karen não pode viajar porque tomou a Coronavac, vacina não autorizada na Itália. Em seguida, lockdown no país europeu.
A terceira teve como ‘culpada’ as variantes do novo coronavírus, causador da Covid-19. Em seguida, o início da guerra entre Rússia e Ucrânia, que causou certo temor de partir para a Europa, antes de Karen finalmente tomar a decisão de embarcar para Roma. “Sempre precisei cancelar as passagens, e essa, que eu menos tinha fé, foi a única que deu certo”.
Com uma gentileza ímpar, Karen concedeu entrevista ao Diário do Estado MT em meio a momentos de pausa, e em outros caminhando mesmo. Confira!

Diário do Estado MT: quem é a personal trainer que está se aventurando na Itália?
Karen Secolini: Sou criada em Sinop. Uma sinopense para o mundo. Estou no meio da Europa, fazendo trilha. Fiz faculdade em Sinop e atuo na área há mais de 10 anos. Neste momento, estou trabalhando remotamente, prestando consultoria online, que é o que me mantém por aqui. Dessa forma, eu consigo trabalhar de qualquer lugar do mundo.

Diário: Em que momento você decidiu fazer essa peregrinação pela Europa?
Karen: Eu sempre quis conhecer a Europa por conta da descendência e cidadania italiana. Uni essa vontade ao sonho de realizar esse mochilão, que comecei a planejar há pouco mais de 3 anos. A previsão para vir era justamente no início de 2020. E é provável que eu estivesse aqui quando a Covid começou a se alastrar. Foi até bom que eu não ter vindo antes, senão teria ficado presa aqui. Não deu certo à época e fiquei muito chateada. Mas agora entendo que não era para eu ir (naquele momento).

Diário: Qual é o objetivo dessa caminhada: cumprir alguma promessa, cunho religioso, ou simplesmente uma aventura?
Karen: Além de conhecer a Europa, meu sonho era ser mochileira. Viajar, conhecer pessoas e culturas, aprender outras línguas, gastando o mínimo possível. Até porque cada pessoa tem um estilo de viagem. O meu estilo é mochilão, acampando, fazendo a própria comida, pedindo hospedagem em igrejas, paróquias. Está sendo a maior experiência da minha vida, porque assim eu tenho contato com muitas pessoas. Se ficasse apenas em hotéis, nunca teria essa troca de experiências. Sem contar que consigo fazer o percurso gastando o mínimo possível. Aliás, sou imensamente grata às pessoas que me ajudam, quase que diariamente, enviando dinheiro através de Pix. Valores de R$ 50, R$ 100, até R$ 1 mil. Eu fico extremamente grata, porque eu passo alguns perrengues, visto que o Real está desvalorizado em relação ao Euro. Também continuo trabalhando através da consultoria online. Não é um trabalho que me deixa rica, mas sigo firme e forte no meu propósito.

Diário: Qual percurso está fazendo?
Karen: Meu objetivo é chegar em Fátima, Portugal. É um pouco de aventura, de religião, de autoconhecimento. Eu parti da Praça de San Pietro, no Vaticano, e estou no caminho. Vai dar muito mais de 3,2 mil km, num tempo de 4 a 5 meses andando. A ideia surgiu esse ano, me deu uma vontade louca de fazer esse percurso. Eu não conheço ninguém que fez esse caminho, porque ele é muito longo. E as pessoas normalmente trabalham, não têm tanto tempo para conseguir fazer esse trajeto de uma só vez. Por vezes, fazem picado. Eu acho que isso é algo sem explicação porque é divino. Eu vou descobrir no caminho. Estou tendo cada descoberta, cada tapa na cara... Estou me surpreendendo no sentido de que existem muito mais pessoas boas do que ruins. Deus existe e milagres existem o tempo todo.

Diário:  Apenas caminhando?
Karen: Apenas caminhando. Eu tive duas caronas apenas, mas foi de no máximo dois km para chegar a tempo em alguma igreja, ou até um lugar que ia me acolher.

Diário: Tem seguido uma programação?
Karen: Eu sigo um ritmo de caminhada, mas não sei exatamente qual a próxima cidade. Para isso, uso o Google Maps, apps [aplicativos] de trilhas. A Via Francigena é segura, sinalizada, tem água [potável] em algumas bicas. Passa por rios, posso ter um pouco mais de tranquilidade nesse sentido.
 
Diário: Tem recebido apoio?
Karen: Diariamente. É inacreditável o quanto as pessoas me ajudam, como elas interagem com essa minha viagem. Falam que é o sonho delas também, que eu estou colocando em prática e levando-as junto na jornada. Eu fico muito feliz e dessa forma eles me ajudam com doações em espécie. Coisa que está sendo extremamente necessária, porque aqui é tudo em Euro. E nem sempre eu consigo dormir de graça, preciso pagar um hotel, então essas ajudas estão sendo muito bem-vindas. Esse apoio por enquanto vem apenas de brasileiros, especialmente dos sinopenses. Os italianos me dão abrigo, um teto para eu passar a noite. Comida, hospedagem digna.

Diário: Tem enfrentado situações diferentes ou inusitadas?
Karen: Todo santo dia enfrento uma situação diferente. Sempre conto nos meus Stories [Instagram]. É uma forma de as pessoas me acompanharem, além de saber onde eu estou, se caso eu sumir (risos)! Mas a situação mais inusitada foi eu receber ajuda sem pedir. Mais uma vez encho a boca para falar que existem muito mais pessoas boas do que ruins. Já recebi carona, comida, hospedagem, chave de igreja para dormir. Fui muito bem acolhida aqui. Sem contar os perrengues que acontecem. Bolhas nos pés, acabar a bateria do celular, ou me perder. Ficar sem água ou sem comida, ou não ter onde dormir e ficar no meio do nada em uma barraca. Perder algum objeto, como carregador do celular, sempre acontece.

Diário: Como é a relação com os europeus?
Karen: Os europeus vão me cumprimentando no meio do caminho. Eu faço a Via Francigena, que corta toda a Itália, é uma trilha bem sinalizada, mas eu faço no sentido inverso. As pessoas normalmente vêm do norte da Europa e vão até Roma, e eu vou no caminho contrário, saindo de Roma. Depois vou atravessar França e Espanha, até chegar em Portugal. Encontro pessoas que querem saber da minha história, os motivos, o tamanho da minha mochila. E muitas vezes isso corre de boca em boca, as pessoas me reconhecem e acenam: “Karen, Karen!”. Já estou começando a me tornar conhecida aqui.

Diário: O que você espera, físico e espiritualmente, alcançar com esse desafio?
Karen – Eu não sou mais a mesma Karen de 20 dias atrás, mas eu espero fisicamente terminar viva (risos!) E espiritualmente terminar com mais certeza que coisas boas acontecem o tempo todo, e, repito, que existem muito mais pessoas boas do que ruins. Tenho a consciência de que se eu pude fazer tudo isso, só com uma mochila, eu posso qualquer coisa na minha vida. Eu quero passar isso às pessoas, que não desistam dos seus sonhos, porque estou aqui e vou terminar esse mochilão.

Diário: Já havia feito algo semelhante na vida?
Karen – Eu nunca fiz uma trilha nesse estilo, de vários dias. Fazia apenas a de Nossa Senhora Aparecida, de Sinop até Santa Carmem, a pé com os meus amigos, mas depois não fazia mais nada durante o ano. Hoje, faço em média 25 km a 30 km por dia, sozinha, com minha mochila.

Diário: Após a conclusão desse desafio, já pensa no próximo?
Karen: Já penso em próximos, mas não andando! Quero dar um bom descanso para os meus pés e para o meu físico. Penso em conhecer outros países, mas através de voluntariado – mas não andando. Indo de avião e ficando 30 dias em cada país. Gostaria de viver disso, mostrar aquele país para as outras pessoas, mostrar que tem como viajar barato, e que as pessoas não precisam ter medo de ir nos lugares. Quero mostrar às pessoas, especialmente às mulheres, que isso não é nenhum bicho de sete cabeças, que elas podem viajar sozinhas. É só se cuidar, não dar bobeira, não fazer trilha noturna, sempre chegar nas cidades antes das 18h, são algumas dicas que eu dou.

Diário: Uma mensagem para a galera do Brasil que tem vontade, mas não tem coragem de encarar esse desafio.
Karen: Não desistam dos seus sonhos. As pessoas colocam muito medo, dizem que é muito caro, perigoso. E quando você chega no lugar é completamente diferente. Estou me sentindo muito segura aqui, como nunca me senti no Brasil. Em média gasto 3 euros por dia, não dá R$ 20 (a menos que precise pagar um hotel, 10 a 20 euros). Estou vivendo com o mínimo possível. Aprendendo inglês e italiano da forma mais gostosa que tem, sem pressão, rindo. Eu falo para as pessoas que estou fazendo um intercâmbio no padrão Karen Secolini. As pessoas são abertas, querem te entender. Falam de uma forma mais simples, de uma forma que você entenda. Mesclam espanhol com italiano, com inglês, com mímicas, e a gente se vira. Uso o Google Tradutor também! Espero estar fluente em inglês e italiano!

Ps.: Karen reforça que a caminhada é no sentido inverso da Via Francigena, no qual se depara com peregrinos partindo de suas localidades em direção à Roma, na Itália.
Até o momento, após partir da capital italiana, está próxima de chegar à fronteira com a França, “onde não faço a mínima ideia de como vai ser!”. Na Espanha, percorrerá o caminho de Santiago de Compostela.

A VIA FRANCIGENA
Contextualizando o leitor e com um pouquinho de história. A Via Francígena era uma importante estrada percorrida por milhares de peregrinos no passado. Era parte de um conjunto de ruas que levavam da Europa central, especialmente da França (mas também da Suíça), para Roma e, mesmo por isso, a estrada começou a ser chamada, já na época antiga, de Francigena, ou seja, proveniente da “terra dos Francos”.
A peregrinação na Idade Média era para ser percorrida principalmente a pé (por motivos de penitência), os peregrinos levavam consigo um fundamental aspecto devocional: a peregrinação aos lugares sagrados da religião cristã.
Três foram os polos de atração para esta humanidade viajante: Roma, lugar do martírio de São Pedro e São Paulo; Santiago de Compostela, onde o apóstolo São Tiago tinha escolhido descansar em paz; e Jerusalém, na Terra Santa.
O peregrino não viajava sozinho, mas em um grupo, e levava as insígnias da peregrinação: a concha para Santiago de Compostela; a cruz para Jerusalém; e a chave para São Pedro em Roma.

SOBRE O CAMINHO
A Via Francigena (Itália) é indicada para aqueles que buscam um caminho de peregrinação de longa distância, como o Caminho de Santiago de Compostela e vivenciar uma experiência de caminhar todos os dias.
Há mais de mil km para percorrer na Itália, desde a passagem de Gran San Bernardo até Roma, passo a passo. Trilhas de montanha fáceis, trilhas de pedra, estradas secundárias, sem tráfego, estradas brancas entre ciprestes ou sombreadas por pinheiros domésticos.
Os sinais de trilha guiam você pela Itália onde todas os caminhos o levam a Roma: a rota oficial da Via Francigena é a mais segura, mais fácil, sem dificuldades técnicas, cuidadosamente projetado para ser seguido por todos e todas as idades.

PRAZER, KAREN!
Na quarta-feira, dia em que finalizamos a entrevista, Karen estava de saída de Siena, na Toscana, Itália. “Em cada noite, estou em uma cidade diferente. Por isso, não sem onde irei dormir, vou descobrindo pelo caminho. Pergunto para os peregrinos que encontro no caminho um lugar que hospede de graça. E sempre encontro um lugar, porque eu gosto de conversar com os outros!”.
Para quem quer conhecer o trabalho da personal e contribuir nesta aventura:

Consultoria: linktr.ee/Karensecolini
Instagram: @karensecolini
WhatsApp: (66) 98423-1173
Pix: 66984231173

Fonte: JOSÉ ROBERTO GONÇALVES

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