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Não! Não Olhe!
02 de Setembro de 2022 as 09h 01min
Bem encaminhado para se tornar um novo M. Night Shyamalan - ou seja, um cineasta que faz do mistério sua arma de marketing e eventualmente pode se tornar refém da expectativa que seus mecanismos de plot twist geram sobre o público - Jordan Peele não se faz de desentendido e, assim como Shyamalan, escolhe o terror com extraterrestres para ser seu terceiro longa de estúdio.
A diferença fundamental é que Sinais (2002) é um filme sobre fé e Não! Não Olhe! (Nope) é um filme sobre evidências - pelo menos a princípio.
Não há religiosidade possível, ou crença numa insondável força maior, para os personagens negros de Peele, cuja maior herança nos EUA é justamente a desconfiança numa certa ordem natural e social das coisas. Por mais que a família de Mel Gibson atravesse dificuldades em Sinais, eles sempre terão a si mesmos, seu terreno, sua plantação, sua Igreja. Já os irmãos OJ (Daniel Kaluuya) e Emerald (Keke Palmer), protagonistas de Nope, precisam se provar o tempo todo; a sua única posse, os cavalos treinados que eles emprestam para produções de cinema na Califórnia, vêm sendo negociados um a um num período de crise e luto, depois que o pai dos dois é morto misteriosamente no rancho da família por projéteis que caíram do céu.
Reparação histórica é obviamente a meta de Peele, e o texto de Nope deixa isso mais do que patente a partir do momento em que Emerald discursa ao pessoal de Hollywood sobre o jóquei americano que teve sua negritude apagada do primeiro registro fílmico de fotografias em movimento, no século XIX. Em busca de justiça, portanto, as evidências se tornam o próprio MacGuffin de Nope, e quando a ameaça dos céus paira sobre a cabeça dos irmãos eles só conseguem pensar nisso como uma oportunidade de provar seu testemunho.
As estrelas são obviamente uma marca do desconhecido no espaço sideral, e como tal podem ser entendidas como uma hostilidade num suspense de OVNIs, mas as estrelas também podem ser lidas como um espaço de infinitas possibilidades de triunfo - de estrelato, afinal. Ao mesmo tempo em que Nope renega o caráter desumanizado do showbiz, Peele se reconcilia com esse espaço de fabulação, tipicamente americano.
Recupera-se o mito coletivo, enfim, num filme que nunca duvida da sua capacidade de narrar visualmente. A transformação de OJ é toda visual, seja nas camisetas que ele vai trocando ao longo do filme, seja na assombrosa consciência corporal de Daniel Kaluuya, assim como é visual o easter egg (um extracampo bem “shyamaliano” por sinal) do cavalo correndo atrás das ripas do celeiro, referência evidente ao jóquei das origens do cinema.
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