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Tudo é Possível

04 de Agosto de 2022 as 19h 00min

Existe uma corrente de ideias dentro da comunidade LGBTQIA+ de que o tipo ideal de ficção é aquele que coloca personagens gays e trans dentro de uma história para que eles sejam mais que apenas uma orientação e um gênero.

Essa corrente acredita que a naturalização é o caminho mais eficaz para ir transformando, aos poucos, o imaginário coletivo. É o que David Levithan já faz em sua literatura, por exemplo; ou o que Sex Education promove quando não faz nenhum outro personagem da série questionar a amizade entre um menino gay e um menino hetero. Está ali, é natural, não tem que ser problematizado.

Billy Porter, diretor de Tudo é Possível, se tornou um rosto conhecido no mundo por conta de Pose, uma série feita dos pés à cabeça para ser um brado político. Era de se esperar, então, que sua primeira incursão na cadeira de diretor fosse refletir seus anos de Broadway ou seu currículo tomado de prêmios dramáticos. Eis que a Amazon apresenta um longa totalmente apoiado em bases juvenis, com uma história teen, carregada no romance, dominada pelo colorido e com doses cavalares do mais desavergonhado otimismo.

Uma coisa está ligada à outra, é claro. Kelsa, a protagonista, é trans. Como toda menina de 17 anos ela está dividida entre o que fazer com o futuro e como lidar com as expectativas românticas do presente. Até que, numa aula de artes, ela conhece Khal e a atração imediata coloca ambos diante de uma circunstância nova. Desse jeito, o roteiro de Ximena García Lecuona usa a base das comédias românticas típicas do mundo cis para naturalizar a presença de uma protagonista trans. O problema é que, ao mesmo tempo, Kelsa ser trans é o conflito em que se escora a dramaturgia do filme. Até que ponto esse ato de naturalização estaria mesmo funcionando?

Durante a primeira parte, parece que o objetivo dos envolvidos é contar uma história de amor como qualquer outra, apostando de verdade na inserção de um elenco pautado em diversidade, sem se preocupar em sublinhar isso, usando de propósito todos aqueles signos tão identificáveis para todos nós. Ao passo em que Porter explora lindamente as belezas de Pittsburgh e faz desse um dos grandes trunfos do filme, ao mesmo tempo, sua direção é genérica e não imprime o retorno de expectativas inevitáveis que seu nome trouxe ao longa.

Tudo é Possível é um filme divertido, com bons diálogos, uma direção ágil e boas intenções. Mas é indeciso. Todo o universo que ele promove é agradável quando se mantém na superfície. Contudo, a qualquer sinal de esforço para aprofundar qualquer coisa, os objetivos colidem e o filme se transfigura.

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